ETNODOC

 

Edição 2009

Na edição de 2009 recebemos 706 inscrições de projetos de quase todos os estados brasileiros. Um júri de especialistas selecionou, considerando a disponibilidade de recursos, 16 projetos de documentários, que foram realizados ao longo de 2010 e são agora exibidos.

A qualidade e a diversidade de temas e abordagens dos diferentes diretores são o grande destaque desse conjunto de curtas-metragens de 26 minutos, que nos oferece um sensível recorte da produção recente pelo país.

Filmes premiados:

Eu tenho a palavra

Uma viagem linguística em busca das origens africanas da cultura brasileira. O antigo reino do Congo foi a origem da maioria dos africanos escravizados no Brasil, que, no cativeiro, criaram diversos dialetos para que pudessem se comunicar livremente. A “língua do negro da Costa” é um desses dialetos, ainda preservado na comunidade remanescente de quilombo de Tabatinga (Bom Despacho, MG). O idioma é composto por um português rural do Brasil-Colônia e línguas do grupo Banto, com predomínio do quimbundo e mbundo, faladas até hoje em Angola. Dois personagens – um falante da “língua do negro da Costa” e outro falante de quimbundo e mbundo – são os guias nessa viagem transoceânica de reconhecimento.

João da Mata falado

Os encantados, tema deste documentário, são entidades que figuram nos Pajés – religião de matriz negro-africana praticada mais extensamente na borda oeste do Estado do Maranhão, Brasil. O filme centra a atenção na família de João da Mata, um encantado pertencente à linha dos “caboclos”, e que é conhecido por praticar curas (físicas ou espirituais). Tais definições são maleáveis e oscilam segundo a casa e a experiência de cada praticante/Pajé.

Curandeiros do Jarê

A história de Ademário, personagem principal do documentário e filho de santo do Jarê. O filme percorre o universo mítico da cura, da relação com a natureza e dos conhecimentos ancestrais que os curandeiros detêm sobre a medicina natural. O Jarê das Lavras Diamantinas existe somente na região da Chapada e é uma face do candomblé muito pouco estudada e reconhecida no Brasil. Com praticamente duas décadas de proibição oficial do garimpo na região, houve uma grande evasão dos garimpeiros que viviam nas serras e muitas casas de Jarê não mantêm mais as suas práticas.

Kusiwarã – as marcas e criaturas de Cobra Grande

O documentário trata das formas de criação e recriação dos padrões gráficos que constituem um dos saberes valiosos – juntamente com cantos, danças e diversas tecnologias – apropriados pelos Wajãpi em seus contatos com os donos da água e da floresta. Cobra-Grande, dono e controlador do universo aquático, está presente na vida cotidiana dos Wajãpi, que comentam, no filme, os modos adequados de se comportar e conviver com ele.

Vento Leste

Documentário poético que mostra a viagem de dois dos últimos saveiros comerciais da Baía de Todos os Santos: o “É da vida”, que sai da tradicional localidade de Maragogipinho carregado de cerâmicas, e o “Sombra da lua”, que sai de Maragogipe carregado de frutas, verduras e carnes defumadas, ambos com destino a Salvador. Na primeira parte do percurso, veem-se nas margens ruínas de fortificações, engenhos de açúcar e igrejas do Brasil Colonial, e, na segunda parte, indústrias modernas, uma movimentação de barcos cortando o mar em alta velocidade e grandes cargueiros ancorados no porto. Durante o trajeto, os mestres tripulantes revelam suas experiências de vida, fatos históricos e lendas da região.

Quindim de Pessach

Quindim de Pessach retrata um rico encontro entre a cultura judaica e a brasileira por meio da culinária, retratando o modo como esse saber foi transmitido pelas matriarcas judias para suas brasileiríssimas cozinheiras, que aprenderam com elas não apenas as receitas desses pratos carregados de tradição, mas também todos os costumes – simbólicos, festivos e religiosos – relacionados à comida. São histórias de vida recheadas de encontros e sabores! O documentário mostra ainda como nossas cozinheiras se apropriaram, com tanta dedicação, de uma nova cultura, acrescentando a ela os sabores de suas miscigenadas raízes, e se tornaram detentoras de um importante saber, transmitido às novas gerações, que vêm descobrindo a importância de preservar suas tradições.

Lá do Leste

Street dance, grafite, rap e gospel. O filme mostra como a experiência periférica urbana tem um lugar central na produção dos artistas de Cidade Tiradentes, que cresceram junto com o distrito paulista e em suas obras dialogam com seus desafios e sonhos. A Cidade Tiradentes é o maior complexo de conjuntos habitacionais populares da América Latina, lugar marcado pela exclusão, com loteamentos clandestinos e favelas, no qual a população orquestra suas dificuldades com dinâmicas próprias de sociabilidade, moradia e apropriação do território.

Palavras sem fronteira – tradições orais nos limites do Brasil

Documentário sobre contadores de causos/cuentos que habitam a tríplice fronteira entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina. A narrativa audiovisual explora as nuances e a riqueza dessa manifestação expressiva, com um enfoque especial para os seus protagonistas, os contadores, e suas particulares performances. São privilegiados os encontros entre os habitantes da região, muitos deles casais de diferentes nacionalidades, famílias ou grupos de amigos que em “roda de causos” multiculturais revelam, por meio de suas histórias, as riquezas e peculiaridades que caracterizam o viver “na fronteira”. João Emílio, Don Chico, Seu Napoleão, Dona Lira, Nelson e Morocha são alguns dos narradores que conduzem com sensibilidade e bom humor o espectador pelo universo dos causos fronteiriços.

No rastro

No sertão do Inhamuns, Estado do Ceará, vive há 96 anos Zé Valadão. Ele é um dos últimos representantes de uma estirpe sertaneja em extinção: os rastejadores. Uma rês perdida do rebanho, um ladrão de cavalos, um assassino que a polícia não encontrou, uma criança perdida na caatinga, nada escaparia da sabedoria e das artimanhas dos Valadão. A palavra de um Valadão valia mais que a sentença de um juiz ou um informe de detetive. Se alguém passasse por eles na vida e deixasse alguma marca no pedregoso e duro chão nordestino, jamais esqueceriam; para eles, é mais fácil se lembrar de um rastro que de um rosto. Ao lado dos irmãos Chagas, Assis e Antonio, já falecidos, Zé transformou-se em verdadeira lenda na região. Hoje, ainda trabalha em sua pequena roça de milho e na criação de algumas vacas e cabras, além de observar atentamente o progresso do neto e de um sobrinho nas artes e técnicas do rastejar.

Mbaraká – a palavra que age

A partir de entrevistas com os xamãs nhanderu, e de registros dos seus cantos, danças e cerimônias, o filme aborda o universo dos cantos xamânicos por meio dos aspectos performáticos da palavra, da sonoridade, do gesto, da dimensão onírica e de volição mobilizada pelo canto. Se a palavra pode ser história, mito e narrativa, entre os Guarani-Kaiowá ela também é poesia e profecia: um canto de esperança em um futuro melhor.

Dona Joventina

O documentário apresenta as polêmicas “biografias” de Dona Joventina, boneca do maracatu Estrela Brilhante. A escultura de madeira escura ficou durante 30 anos (1965-1996) sob a posse da pesquisadora Katarina Real, antes de ser doada ao acervo do Museu do Homem do Nordeste, em Recife. Hoje, existem duas nações de maracatu que se denominam Estrela Brilhante e que de formas distintas reivindicam a posse e a retirada da boneca do museu. Uma nação fica localizada no Alto José do Pinho, na cidade do Recife, e a outra, em Igarassu, antigo município dos arredores da capital. O filme registra a visita das duas nações ao museu, buscando mostrar os sentimentos e os usos dos diferentes sujeitos envolvidos com Dona Joventina e outras bonecas de maracatu.

Hoje tem alegria

O documentário acompanha o cotidiano de três circos no norte e nordeste do Brasil, tomando como eixo três personagens míticos da tradição circense brasileira: os pernambucanos Índia Morena e o mágico Alakasan e o amapaense Ruy Raiol. Os três juntos representam a tradição do circo de pequeno porte no Brasil. Longe dos grandes centros, esses seres errantes e apaixonados por sua arte lutam para manter firme a tradição do maior espetáculo da terra.

As escravas da Mãe de Deus

O argumento central é a folia popular “Escravas da Mãe de Deus da Piedade”, que ocorre na região de Igarapé do Lago, distrito do Município de Mazagão, no Amapá. A celebração – os fiéis, as crenças e os rituais – em louvor a Nossa Senhora da Piedade é o fio condutor do filme. Busca-se uma composição entre palavras, gestos e sons. A própria observação das pessoas, enquanto fiéis, seus silêncios, gestos, rostos, movimentos de mãos, olhares, revela circunstâncias ritualísticas que comunicam uma paisagem visual e sonora. A partir dos recursos da etnografia e da música, busca-se uma composição de sons originais das rezas, ladainhas, batuques e paisagem natural, sem perder de vista uma verossimilhança com o ritual e suas características originais.

Baile do Carmo

O documentário acompanha os preparativos de uma edição do popular festejo. Tido como a mais sólida manifestação da cultura negra no município de Araraquara (SP), o Baile do Carmo é um símbolo de resistência e celebra a identidade desse grupo étnico. A partir dos relatos de pessoas envolvidas com o evento – organizadores e participantes –, a produção resgata a importância que essa tradicional festa possui para as gerações passadas e atuais, enfocando os anseios e expectativas que crescem na vida desses personagens conforme a realização do Baile se aproxima. Eles surgem sinceros e de corações abertos, expondo o poder transformador de uma única noite em seus cotidianos.

A boca do mundo – Exu no candomblé

Uma abordagem etnográfica e experimental sobre as múltiplas manifestações culturais de Exu, orixá/deus da religião afro-brasileira candomblé. A realização desse documentário subverte as formas tradicionais de realização documental e parte de oficinas de capacitação em audiovisual com adeptos do candomblé, considerando a intimidade dessas pessoas com os aspectos relacionados a Exu, sejam eles materiais ou espirituais. Ao trazer membros da religião para a captação das imagens, objetiva-se tornar a representação mais interessante e verdadeira. Depoimentos de Mãe Beata de Iemanjá, ialorixá do Rio de Janeiro, e outras pessoas que vivem o candomblé.

Soldados da borracha

O que aconteceu com os seringueiros que extraíam borracha na Amazônia para ajudar, durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados? A maioria morreu sem nenhuma assistência na própria floresta que a propaganda de guerra divulgava como paraíso. O Acre foi seu destino preferido e é nesse cenário de luta pela preservação ecológica que os sobreviventes contam como a promessa de riqueza deu lugar à solidão e ao desamparo. Em meio a imagens da região nos anos 1940, nas cidades de Rio Branco, Plácido de Castro e Xapuri, eles mantêm a memória acesa e não sucumbem à infelicidade, mesmo que o outono de suas vidas tenha chegado.